18 de janeiro, 2017 - 00h00 - por Elvis Rocha

Meio Amargo lança álbum de estreia com folk rock

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Foto: Erik Lopes

A essa altura do campeonato já temos idade para saber. A vida, noves fora tudo, não é lá essas coisas. Enumere aqui as razões para concordar. O problema, bem lembrou o Veríssimo, é o que sobra como alternativa. Então vamos em frente. Doses de alegria, nacos de tristeza. Até que buscamos refúgio no amor, esse ideal maravilhoso, e, risos, ele também nos fodeu. O jeito é emoldurar essa gangorra do inferno em algo que nos sobreviva da melhor maneira. A Arte? Escolha a sua.

Lucas Padilha escolheu a música. E abraçou a dualidade, a contradição, como forças criativas. Se a existência é esse rir e chorar sem trégua, melhor afinar o violão, compor umas canções, convidar uns amigos para tocar e embalar tudo num batismo que não deixe dúvidas: Meio Amargo. Assim como os dias. É sob essa alcunha que Lucas vem arriscando aqui e ali (dois EP's e apresentações em bares e festivais da cidade) antes de dar o primeiro grande salto. Este álbum de estreia.

“Tudo o que dissemos que não era”, o título, alude a um trecho do poema “Uma definição”, de Charles Bukowski, no qual o escritor propõe, em um par de linhas, possíveis respostas para a eterna questão sobre a (s) natureza (s) do amor. “O amor é um burro parado numa rua de moscas”, resmunga o Velho Safado. “O amor é como cigarro, que vicia e mata aos poucos”, retruca Lucas. De certa forma, o lirismo que passeia pelas dez faixas tem essa natureza: uma tentativa renovada de exorcizar esse sei-nãosei emocional. Negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Soa familiar. Porque é.

Bem. Mas. A conversa principal aqui é sobre música. E todo esse lari-lari amoroso-existencial não teria a menor relevância não houvesse uma base sonora consistente para sustentá-lo. Após os esboços de “Músicas Simples Para Pessoas Complicadas” (2014) e “Far From Moscou” (2015), Lucas se trancou a sério no estúdio de Diego Fadul (Aeroplano) com a turma certa. João Lemos (Molho Negro), Netto Batera (Turbo) e Manuel Malvar (Norman Bates) para sair das sessões com um álbum pop no melhor dos sentidos. Assobiável. Conciso. Dinâmico. Que honra as raízes nas quais orgulhosamente se deita.

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Capa com ilustração de Layse Almada e design de Gustavo Rodrigues

Com lados A e B imaginários (Ah, essa gente na casa dos trinta e suas idiossincrasias), “Tudo o que dissemos que não era” recende a Jeff Tweedy (“Pra Nós Dois”), Mark Lanegan (“Amor e Cigarros”, “Jonnhy Depp Song”), Donovan (“Lullaby”) e nos momentos acelerados (“Bom Rapaz”, “Ela Não Liga Pra Mim”) a toda trupe do sha-lá-lá com palminhas de 50 anos pra cá. Importante: retoma o sotaque intrometido de bandas como Suzana Flag, Stereoscope, The Baudelaires e La Orchestra Invisível no cenário rebolativo da música paraense. Verso. Coro. Verso. A gente curte. A gente gosta.

O amor é o estado no qual os homens têm mais chances de enxergar as coisas como elas não são, filosofaria o Nietszche. O amor é um cavalo com a perna quebrada tentando se levantar enquanto 45 mil pessoas observam, reforçaria o Bukowski. O amor somos Yoko e eu, cantarolaria o John. O amor é uma conta bancária recheada de direitos autorais, gargalhariam Roberto e Erasmo. O amor são coisas demais e muitas outras cousas e tais, qualquer um acrescentaria. E pelos próximos 38 minutos, acredite, o amor são dez canções no álbum de estreia de uma banda chamada Meio Amargo.

OUÇA O DISCO NO SPOTIFY

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Gravado entre agosto e novembro de 2016 no estúdio Ataque da Baleia - Belém-PA

Bateria gravada no Fabrika Estúdio. Técnico de gravação: Kleber Chaar

Produzido por Diego Fadul

Lucas Padilha: voz, violões e gaita

João Lemos: guitarras e vocais

Manuel Malvar: baixo

Netto: Bateria

 

Participações:

Eduardo Feijó: violão solo em "The Johnny Depp song"

Diego Fadul: guitarra em "Pra nós dois” e vocais em “Cão Bravo”

Pedro Paulo Soares: banjo em "O último gole"

Ilustração: Layse Almada

Capa: Gustavo Rodrigues

Todas as composições por Lucas Padilha


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