11 de dezembro, 2014 - 00h00 - porKarina Menezes

Entrevista: Leo Bitar

GERAL > dez 2014

       Ele meteu a cara em um sonho antigo, e daí nasceu a Discosaoleo, loja de vinis e primeiro selo paraense de LPs depois da retomada do formato de vinil - e mais direcionado ao rock paraense independente. Nesta sexta (12), Leo Bitar comemora os lançamentos de 2014 com um show de Ana Clara e The Tump. Mas há muito mais para se comemorar e planejamentos para colocar fora do papel. Entrevistamos Leo Bitar para saber qual balanço ele faz do ano que passou e quais sonhos devem ser postos em prática nos próximos meses. 

SR: A Discosaoleo tá celebrando o quê nessa sexta?

LB: Celebraremos a abertura da loja e do selo "Discosaoleo" com shows das bandas que tiveram lançamentos em vinil neste ano. 

 

SR: Há quanto tempo tinhas em mente a vontade de abrir tua loja e um selo de vinis? O que te fez chegar à conclusão que Belém estava pronta pra receber a Discosaoleo?

LB: A vontade de ter uma loja de discos vem de longo tempo, já que sou colecionador de LPs e um apreciador do som analógico desde a adolescência. Nesta pesquisa musical, percebi que alguns selos musicais têm características e estéticas sonoras. Ampliando a busca de uma certa sonoridade em alguns selos independentes, logo comecei a aprofundar esses conhecimentos.

Nunca parei de comprar vinil. Apesar de não serem fabricados no Brasil nas décadas de 1990 e 2000, a Europa nunca parou de fabricá-los. Com a crise no mercado fonográfico dos CDs, os Estados Unidos reabriram algumas fábricas e muitos selos independentes voltaram a fabricar LPs. O mercado analógico voltou com toda força, abrindo novas lojas, inclusive no Brasil.

Agora com a Polysom, única fábrica de discos no Brasil, o mercado musical independente também investiu no LP, que está sendo muito consumido no país inteiro. Como eu sou um consumidor do formato e percebendo que não havia uma loja neste estilo em Belém, resolvi investir nessa área, pra que os apreciadores do vinil tenham um espaço para conversa, ouvir discos e trocar conhecimentos. E, claro, comprar os lançamentos sem ter que fazer encomenda em outros estados, tendo contato com o produto em uma loja física.

 

SR: E quais as dificuldades de se manter um selo de vinis aqui na cidade? Olhando pra trás, o que saiu como tu planejaste e quais os planos que tiveste que jogar pra 2015? 

LB: Ainda não podemos apontar dificuldades, já que abrimos há pouco tempo. Os lançamentos do Discosaoleo têm saído de forma bem interessante. A procura é muito boa e além da felicidade dos clientes em comprar discos de vinil de bandas locais, é realizar um sonho meu e das bandas que temos parceria. É super bonito ver os discos da Ana Clara e do The Tump! em formato grande, incluindo a arte gráfica, que ganha outra dimensão, além de ver o selo "Discosaoleo" girando na vitrola sem parar. Nem tudo saiu como planejado, pois há a demora de prensar os discos, o frete e tudo mais. A meta foi atingida, pois só primeiros lançamentos do selo estão aí e estamos muito satisfeitos. Tivemos um problema no frete do LP do Molho Negro, que seria o último lançamento do selo em 2014.

 

SR: Quais os lançamentos que já estão programados pro ano que vem? 

LB: Alguns acertos estão sendo feitos e não posso adiantar nada ainda. Mas abriremos o ano com o disco do Molho Negro, “Lobo”, que ficou lindão!

 

SR: Ana Clara e The Tump estão fechando um ciclo da Discosaoleo. Como esse ciclo começou? Digo, como rolou pra eles serem os primeiros discos lançados pelo selo? Quais as peculiaridades de cada um dessas artistas que tornaram o trabalho com eles mais prazeroso?

LB: Tudo começou com um show que assisti da Ana Clara. Fiquei impressionado com o som forte da banda e da delicadeza da voz da Ana, que cria um contraste muito interessante. Apesar da voz delicada, Ana tem uma força incrível na figura e no que escolhe pra cantar, tem no repertório canções com sabor doce e amargo, com pitadas de psicodelia e som pop. Após o show, corri pra falar com a Ana e disse como seria lindo um disco em vinil daquele trabalho. Ela ficou super animada e assim começou a primeira parceria do selo. Depois de decidido abrir o selo com a Ana, pensei em qual banda poderia estar no catálogo, e logo veio o The Tump! na cabeça, banda que sou super fã, desde que os vi nas Seletivas Se Rasgum em 2012. Também queria citar o Marcelo Damaso, que em uma conversa, meteu corda total nas idéias.

 

SR: Falando sobre a gravação dos vinis, tem alguma parte do processo que fazes fora? Se sim, tens algum plano de um dia fazer tudo por aqui? 

LB: Como o formato do disco da Ana Clara seria um 10 polegadas, tivemos que prensar fora. Por isso, os do The Tump! também foram na mesma leva. O do Molho Negro será prensado na Polysom, e os futuros projetos do selo também serão feitos lá, pois acredito que é extremamente importante investir no mercado nacional, além da mensagem deles que está muito boa. A masterização dos vinis é feita em outro estado, mas estive conversando com o engenherio de som Assis Figueredo sobre as possibilidades de termos, além da gravação e mixagem, masterização para vinil aqui na cidade, pois acho que podemos ter um som próprio da região, com uma estética sonora nossa. Seria formidável, não?

 

SR: Nesse meio tempo, o que pudeste observar em relação aos consumidores de vinis da cidade? Eles são muitos? Qual a faixa etária mais frequente? Eles têm consumido muito as produções locais registradas no selo da Discosaoleo? Quais os discos que têm saído mais? 

LB: Muita gente nova tem comprado discos, além da velha guarda que, se nunca parou de comprar LP, voltou a ter apreço pelo formato. Não são muitos, mas são fiéis. Acabamos fazendo amigos-clientes, que chegam pra conversar, trocar ideias, conhecimentos musicais e, principalmente, curiosidades sobre prensagem e selos antigos. Os discos lançados pelo selo têm saído bastante, estamos correndo agora para fechar uma distribuição nacional.

 

SR: A Discosaoleo também se tornou um dos grandes pontos de encontro da galera envolvida com a cultura paraense. Já esperavas que ela fosse além do propósito de ser uma loja de vinis?

LB: Eu sempre trabalhei com arte na cidade, seja com teatro, instalações sonoras, vídeo, etc. Muitos sabem da minha paixão pela música e que tenho vasta coleção de LPs. Então, além de abrir a loja, quis criar uma sala para shows pequenos, um espaço pra experimentação e ensaio. Eventualmente, abrimos as portas para apresentações com público, criando esse encontro intimista e de criação, importantíssimo para movimentar idéias e fomentar arte.

 

SR: Mais do que os planejamentos que já tens, o que tu desejas pra Discosaoleo em 2015? 

LB: Não sou de fazer planos megalomaníacos, mas desejo que em 2015, as pessoas visitem mais os espaços físicos e larguem um pouco o computador. E que venham muitos lançamentos do selo, porque disco é verdade!


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